Arquivo mensal: fevereiro 2012

Sol em sêxtil com Plutão

Em 28 de Fevereiro, Sol e Plutão se posicionam em ângulo de sessenta graus, propiciando transmutações e curas interiores.

Conta-nos uma antiga lenda sufi que, uma ocasião, um Mestre deixou a casa onde morava com seus discípulos, no alto de um monte, para transmitir os ensinamentos sagrados ao povo.

Durante sua ausência, ocorreu um acidente e a casa pegou fogo.

Deseperados, os discípulos começaram a brigar, acusando-se mutuamente de serem culpados pelo acidente. Até que um deles falou: “O nosso Mestre nos confiou essa casa e nós não fomos capazes de cuidar dela”.

Então, pararam de brigar entre si e começaram a reconstruir os restos do incêndio, na esperança de que, quando o Mestre voltasse, não os punisse pela falta.

Mas o Mestre retornou antes que tivessem acabado e encontrou o trabalho em andamento. E, para a surpresa dos discípulos, mostrou-se alegre e satisfeito: “Que bom!”, disse ele. “Temos um casa nova!”

Um dos discípulos, envergonhado, disse a verdade: “Mestre, não fomos capazes de cuidar da casa. Um incêndio a destruiu. Não somos dignos de ser seus discípulos.” E todos baixaram tristemente a cabeça.

E o Mestre respondeu:

“Não posso compreender o que vocês estão me dizendo. O que vejo é um grupo de homens com fé na vida e no futuro, trabalhando para construir uma nova etapa. Muitas vezes, aquele que perdeu tudo está em melhor situação do que muita gente, porque agora, só tem a ganhar”.

Essa história nos fala da capacidade de regeneração, seguramente uma das mais marcantes e significativas qualidades humanas.

O Sol nos traz a possibilidade de clareza e compreensão acerca dos fenômenos (externos ou, o que é mais importante, internos) que nos assaltam e afligem. Já o planeta Plutão, senhor das regiões sombrias, nos traz a idéia de transmutação e alquimia. O sêxtil (ângulo de 60º) entre esses dois pontos indica uma fluência plena de talentos, como se essas partes da nossa alma resolvessem se estimular e ajudar mutuamente. Isso nos dá a possibilidade de compreender mais e melhor esses processos e proceder às ações alquímicas necessárias.

E nos traz à consciência a necessidade de se exercitar a suprema arte da libertação: o desapego.

Aproveite essa semana, em que o sêxtil entre Sol e Plutão está nos céus, para refletir sobre aquilo de que você pode e precisa se desapegar. E sobretudo sobre as perdas, ou seja, aquilo de que você foi separado, mas teimosamente continua a se apegar. Muitas vezes, relutamos em aceitar uma perda, por não entender (e, o que é pior, nem sequer tentar entender) o significado dela.

Esse sêxtil entre Sol e Plutão nos lembram a grande lição do Mestre: de que há muitas coisas em nossas vidas que parecem ter uma etiqueta, em que está escrito: “Você só compreenderá o meu valor quando me perder… E me recuperar”.

Não há como encurtar esse caminho.

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Máscaras do Céu e da Terra

Caros Amigos,

Atendendo a pedidos, segue na íntegra o poema As Máscaras do Céu e da Terra, cujo trecho final foi utilizado no nosso post anterior.

 

Máscaras do Céu e da Terra

Da magia de um tempo que passou

Pude colher a mais sagrada inspiração

De carnavais que inda persistem em viver

Pra te contar de uma cálida paixão.

 

Uma mulher e seu desejo de amar

Podem causar a mais profunda emoção:

Dois corações que passarão a palpitar

Ansiando por um mesmo coração.

 

Assim viveu a poderosa Colombina

Na indecisão de duas fábulas de amor

Um coração que se reparte pela sina

Dos corações que sua beleza conquistou.

 

Em meio ao sonho de um olhar apaixonado

Em meio à força de um beijo tão ardente

Sucumbiu a sua alma de mulher

Dividida entre dois lados, num repente.

 

Um Arlequim demais ousado e sensual

Incendiou-lhe o grande incêndio das paixões

E num rompante inundou seu Carnaval

Num grande beijo, em primitivas emoções.

 

Mas um olhar apaixonado e irreal

De um romântico e amoroso Pierrot

Trazendo todo o encantamento surreal

Dos mais perfeitos sentimentos de Amor.

 

Seu corpo treme de desejo de Arlequim

Sua alma sonha com o olhar de Pierrot

Num Carnaval a emoção se faz assim:

Prazer é sonho, magia é calor.

 

A vida é sempre uma novela singular

A vida nunca pode ter razão alguma

Quem poderia isso jamais imaginar?

Uma ama dois e dois amam só uma!

 

Mas qual seria de Colombina o desejo

Que lhe faria o coração equilibrar?

Ver reunidos, a volúpia desse beijo

E a ternura cristalina desse olhar.

 

No Carnaval das nossas vidas, meu amor

O Criador nos reservou eterna sina

Não sei se encarno Arlequim ou Pierrot

Mas com certeza sei que és minha Colombina.

 

Por entre horrores e alegrias caminhei

Por entre gritos e sussurros eu vivi

Por entre mares e estrelas eu andei

Por entre cores e fragrâncias eu te vi.

 

O prateado de um luar me conquistou

O diamante em teu olhar me seduziu

O perfume em tua voz me incendiou

A luz do sol das tuas mãos me reluziu.

 

Como Deus e o Diabo em meu peito

Sinto a presença de Pierrot e Arlequim

Um chama ao Céu e o outro chama à Terra

Duelando por você dentro de mim.

 

Meu Arlequim dentro de mim é só desejo

Meu Pierrot a tua luz quer contemplar

No Carnaval das Ilusões em que me vejo

Como fazer para esses dois apaziguar?

 

Mas, nos astros encontrei esse segredo

Que permitiu a mais completa alquimia

E foi assim que conquistei teu coração

Me colorindo das cores da alegria.

 

Pois, minha linda Colombina, te ofereço

Unificados pelos fluidos do Amor

A volúpia de meu beijo de Arlequim

E a magia de meu olhar de Pierrot.

 

Haroldo José Barros 
Sob os céus do Recife, 13 de Março de 1998, Lua Cheia

Lua e Plutão, em conjunção, fazem quadratura com Vênus

Talvez você já tenha ouvido falar da história que conta o famoso triângulo amoroso entre o Arlequim, o Pierrot e a Colombina. Essa bela e clássica história foi imortalizada através do famoso poema “As Máscaras”, de Menotti del Picchia.

A bela Colombina

Conta essa linda história que o Arlequim e o Pierrot se apaixonaram, sem o saber, pela mesma mulher, uma linda e loira Colombina, sedutora e romântica. Puseram-se a contar, um ao outro, as venturas e desventuras de seus respectivos amores. O Arlequim, ousado e sensual, falava do ardente beijo que, uma noite, por entre rubras tulipas e brancos lírios, trocara com a misteriosa Colombina, que desaparecera logo após, deixando atrás de si um rastro de volúpia. Já o Pierrot, melancólico e sonhador, contou ao Arlequim do olhar profundo e apaixonado, silencioso e sutil, que arrancara suspiros de sua Colombina, em um banco de jardim. E ambos se queixavam do destino, que lhes afastara de suas amadas, sem que nunca mais as vissem.

Nem sequer desconfiavam que falavam da mesma mulher.

A Colombina, por sua vez, tinha o seu coração dividido: seu corpo ansiava pelo toque ousado e quente do Arlequim; sua alma sonhava como o olhar meigo e triste do Pierrot. Lamentava não ver reunidas, em um só ser, a sensualidade das carícias de um e a profundidade do olhar do outro.

Quando finalmente os três se encontram, num fatal acaso, e fica desnudada toda a inebriante trama, a Colombina se diz apaixonada por ambos e declara que encontraria a paz se pudesse ofertar ao Arlequim o seu corpo e ao Pierrot a sua alma.

Pierrot

Essa fascinante história ocorre constantemente, no carnaval de nossas almas. O nosso Arlequim interior, que nos liga à terra, ao prazer e à beleza, nos convoca à concretude e ao  pé-no-chão; por sua vez, o nosso Pierrot interior, que nos liga ao Céu, à magia e ao encantamento, nos chama ao sonho e à poesia. E sabemos que nem sempre os dois se entendem lá muito bem, não é verdade?

Nesta sexta-feira de Carnaval, teremos um momento em que os dois personagens interiores poderão estar maisem evidência. Vênus(que podemos associar ao nosso Arlequim interior) e Lua (que podemos relacionar ao nosso lado Pierrot) se colocam em posição de noventa graus entre si, gerando uma crise: o terra-a-terra do Arlequim e o sonho do Pierrot se conflitam, o que se complica ainda mais pela presença de Plutão junto à Lua.  O Cosmos nos convida, portanto, a fazer trabalhar em conjunto esses dois pedaços de nossa alma, a fim de aproveitar o melhor de cada um.

Os destemperos emocionais, porém, colocarão em teste essa harmonia, fazendo aflorar em nós as partes mais obscuras de ambos os personagens.

Arlequim

Fique atento, portanto.

Realize, mas com o coração e os olhos voltados para o seu sonho; sonhe, mas com as mãos voltadas para a realização desse sonho. E assim, seu Arlequim e seu Pierrot estarão em paz.

De quebra, um trecho do poema Máscaras do Céu e da Terra, os versos de um desconhecido poeta pernambucano, que bem retratam esse conceito:

 

( … )

Como Deus e o Diabo em meu peito,

Sinto a presença de Pierrot e Arlequim

Um chama ao Céu e o outro chama à Terra

Duelando por você dentro de mim.

 

Meu Arlequim dentro de mim é só desejo

Meu Pierrot a tua luz quer contemplar

No carnaval das emoções em que eu me vejo

Como fazer para esses dois apaziguar?

 

Mas, nos astros descobri esse segredo

Que permitiu a mais completa alquimia

E foi assim que conquistei teu coração

Me colorindo das cores da alegria

 

Pois, minha linda Colombina, te ofereço,

Unificados pelos fluidos do Amor,

A volúpia do meu beijo de Arlequim

E a magia de meu olhar de Pierrot.

 

Vênus em quadratura com Plutão

Desafiador aspecto entre a deusa da Beleza e o obscuro Plutão, indicando a possibilidade de sentimentos e emoções desagregadoras.

Como dizia Virgínia Woolf, é mais fácil matar um fantasma do que matar uma realidade. No campo dos afetos e dos relacionamentos isso ainda mais se complica, uma vez que a razão, via de regra, nesses casos é escanteada. A quadratura de Vênus com Plutão é um poderoso indicativo de que alguns fantasminhas não convidados podem vir querer estragar a nossa festa. E, é claro, o lugar de onde saem esses

Virgina Woolf

indesejáveis visitantes é aquele nosso inferninho particular, onde teimosamente insistimos em acumular o nosso lixo emocional, nossos ranços e medos;  e, de vez em quando, esses sentimentos afloram à superfície, na forma de descargas emocionais desagradáveis e desagregadoras. Portanto, antes de sentir preterido ou atraiçoado por alguém (em qualquer nível ou tipo de relação), procure contemplar os seus sentimentos, com serenidade, a fim de compreender as verdadeiras causas interiores dessas emoções. E não adianta ficar histórico (e não histérico): atormentar-se com males passados não leva a nada. Procure, isso sim, compreender os seus erros e, se for o caso, perdoe os erros dos outros. Primeiro, por não adiantar carregar ranços que, mais tarde, trarão novas confusões; segundo, por não existir vingança tão completa quanto o perdão.

Nessa fase, portanto, atente: talvez seja necessário terminar uma relação ou mesmo revisá-la por inteiro. Só não ceda aos seus ciúmes ou aos seus ressentimentos; mas também não os carregue em segredo. Compartilhe-os e verbalize-os (serenamente), procure compreender, inclusive, que fantasmas você traz em seu coração, vindos de relacionamentos anteriores (com família, amigos ou românticos) e que podem estar assombrando os relacionamentos atuais. Tudo isso são formas de reconhecer uma fraqueza, mas tornará você mais forte, à medida em que deixará o seu coração mais leve.

 

Netuno entra em Peixes

Assinalando um dos mais importantes eventos astrológicos deste nosso período histórico, o planeta Netuno,

no dia 04 de Fevereiro, entrou no signo de Peixes.

Décimo-segundo e último signo do Zodíaco, Peixes representa a contemplação, a nossa capacidade de admirar e se encantar com a Obra do criador.

Mitologicamente, está associado aos dois peixes ou golfinhos que ajudaram Netuno, o senhor dos mares, a conquistar a sua esposa Anfitrite. Em agradecimento, Netuno os catasterizou (catasterizar = “transformar em constelação”), assim surgindo a constelação dos Peixes. Trata-se de uma das mais belas constelações dos céus, representando dois peixes amarrados pela cauda. Aliás, a estrela que representa esse ponto se chama Al Risha (= “o nó” em árabe).

Astrologicamente, Peixes representa o momento em que retornamos à casa do Pai, reencontramo-nos com a Essência da qual saímos, brotamos. Por isso, normalmente quando se fala de Peixes, fala-se de religião, de mística, de transcendência.

Regido por Netuno, do elemento água, Peixes está associado à paz, à contemplatividade, à serenidade.

Sob as vibrações piscianas, tendemos à iniciativa do perdão, da não ação, da contemplação, da pacificação.

Já o planeta Netuno representa a nossa mística, fé e espiritualidade, a nossa capacidade de conexão com os planos superiores da existência. Leva 150 a 165 anos para completar uma volta ao redor do Zodíaco. Por isso, os eventos associados a Netuno são impactantes e significativos, pois são raros. E, em Astrologia, quanto mais raro, mais impactante.

Representa ainda os estados alterados de consciência. Está associado à nossa busca por êxtase. Netuno nos diz que não podemos viver sem êxtase. E se não o tivermos podemos acabar por buscá-lo nas drogas ou nos vícios. Está também associado à fantasia e à nossa capacidade de redenção e aceitação.

Assim, entrando em Peixes, Netuno retorna à sua morada, seu lar e, portanto, intensificará o seu poder de impacto sobre a Humanidade.

Podemos contar com um aprofundamento e expansão, portanto, dessa espiritualidade, durante o período em que Netuno estiver transitando por Peixes, o que se estenderá até o ano de 2026. O período poderá trazer um maior sentido de unidade (afinal, somos todos um!), questionamentos a dogmas e alavancagem de valores humanos.

Netuno em Peixes através da História

Para termos uma ideia, eis o que ocorreu em dois momentos da História em que Netuno transitou pelo signo de Peixes.

Ente 1520 e 1534

  • Reforma Protestante e a tradução da Bíblia para a língua popular.
  • Aparição da Virgem em Guadalupe (México), a primeira das Américas.
  • Viagem de circunavegação, realizada por Fernão de Magalhães (sim, pois o signo de Peixes está associado ao oceano).

    Reforma Protestante

Entre 1847 e 1862

  • Surgimento do Movimento Teosófico, liderado por Helena Petrovna Blavatsky.
  • Surgimento do Impressionismo (que se caracteriza por ausência de contornos definidos, mesmo na figura humana, algo bem pisciano).
  • Invenção da anestesia, por Thomas Green Morton, dentista inglês (a anestesia é uma estado não usual de consciência, típico de Netuno).
  • O fim do tráfico negreiro.
  • Publicação do manifesto comunista.
  • O surgimento do Espiritismo, com a publicação dos códex kardecistas.

O que podemos esperar no período 2012-2026

Pelo que vimos acima, os ciclos de passagem de Netuno pelo signo de Peixes representaram momentos históricos de significativo impacto sobre a Humanidade, especialmente sob a ótica da espiritualidade. Uma vez que Netuno rege Peixes, ao transitar por esse signo, potencializa os atributos do mesmo, tanto quanto os seus próprios.

No período que ora se inicia, o que podemos esperar?

Netuno, como todo planeta, em Astrologia, tem um lado brilhante, cintilado e outro obscuro, densificado.

Portanto, nesses próximos 14 anos, podemos esperar:

  • Aumento dos delírios coletivos.
  • Ainda mais falsos profetas e aproveitadores da fé das pessoas mais crédulas.
  • Recrudescimento do fanatismo religioso.
  • Intensificação do uso de drogas e alucinógenos.

Isso do ponto de vista denso.

Do ponto de vista cintilado:

  • Resgate da dimensão religiosa e contemplativa do homem
  • Busca do silêncio interior
  • Silêncio como estratégia de conexão ao Sagrado
  • Criação de novos espaços e fórmulas de transcendência
  • Fim da tolerância e início da apreciação religiosa

Como contribuir?

Meus amigos, nós estamos falando do início de uma Nova Era da Humanidade, um momento de semeadura cujos resultados serão vividos por nossos descendentes. Uma Era em que os valores humanos serão colocados acima dos interesses do capital. Uma Era em que, parafraseando Chaplin, mais do que máquinas, valorizaremos as pessoas. Uma Era em que o progresso e a Ciência estarão a serviço de todos e não de uns poucos.

Mas tudo isso depende do que plantarmos agora, nesse momento fértil em que Netuno transita por Peixes.

E o que podemos fazer, cada um de nós sendo um soldado nesta guerra, um soldado da Paz, para fazer o lado cintilado de Netuno prevalecer sobre o lado denso?

Algumas sugestões:

  • Encarar os desafios da vida, apesar dos medos, das culpas e limitações, porém com compaixão;
  • Buscar a Unidade na diversidade e na adversidade. Lembre-se sempre: Somos todos um!!!!
  • Agir com foco nessa unidade.
  • Reconhecer o outro como irmão. Essa condição básica da Humanidade se perdeu ao longo dos últimos dois mil anos, desde que aquele rapaz barbudo lá da Galiléia nos ensinou bem direitinho como fazer isso. Hora de resgatá-la.

E não podemos esquecer: o exemplo não é a melhor maneira de educar. É a ÚNICA!

Nesses tempos de resgate de espiritualidade, trago, a título de reflexão, um trecho do livro “O Profeta”, de Khalil Gibran, quando um velho sacerdote pede ao Profeta:

“Fala-nos da religião!”

E o Profeta responde.

“Terei falado de outra coisa até agora?

Não será a religião senão todos os atos e toda a reflexão, e tudo aquilo que não é ato nem reflexão, mas encantamento e surpresa sempre

Gibran Khalil Gibran, o Poeta do Líbano

emergentes da alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou trabalham no tear?

Quem poderá separar a sua fé das suas ações, ou as suas crenças das suas ocupações?

Quem pode estender as suas horas perante ele dizendo, “Isto é para Deus e isto é para mim, isto é para a minha alma e isto para o meu corpo?” Todas as vossas horas são asas que voam no espaço de um eu para o outro eu. Aquele que usa a sua moral como a sua melhor indumentária faria melhor se andasse nu. O vento e o sol não abrirão buracos na sua pele. E aquele que rege a sua conduta pela ética está a aprisionar numa gaiola o pássaro que canta. Os cânticos mais livres não saem através de grades nem grilhetas.

E aquele para quem a devoção é uma janela, para abrir mas também para fechar, ainda não visitou a morada da sua alma, cujas janelas vão de aurora a aurora. A vossa vida diária é o vosso templo e a vossa religião. Cada vez que entrais nela, entrai por inteiro. Levai a charrua e a forja, o maço e a lira.

As coisas de que precisais por necessidade ou prazer. Pois em sonhos não podereis erguer-vos acima dos vossos feitos, nem cair mais baixo do que as vossas falhas. E levai convosco todos os homens, pois na adoração não podereis voar mais alto do que as suas esperanças, nem humilhar-vos mais baixo do que o seu desespero.

E se quereis conhecer Deus, não pretendais resolver enigmas. Olhai antes à vossa volta e vê-Lo-eis a brincar com os vossos filhos. E olhai para o espaço; Vê-Lo-eis a caminhar sobre as nuvens, de braços estendidos para a luz, descendo sobre a chuva.

Vê-Lo-eis sorrindo no meio das flores, e depois erguer-se e agitar as árvores com as Suas mãos.”